Consciência Negra: funcionários compartilham resumo de TCC do curso “História da África”
Em referência ao Dia da Consciência Negra, em 20/11, que neste ano será celebrado pela primeira vez como feriado nacional, o setor de Desenvolvimento Humano da Fundação São Paulo destaca as produções acadêmicas de ex-alunos do curso in company de Pós-Graduação Lato Sensu “História e Cultura da África – Educação e Relações Internacionais”.
A FUNDASP reconhece o racismo como um problema estrutural e assumindo uma postura ativa na implementação de iniciativas antirracistas criou o curso em 2021, também com foco na promoção do desenvolvimento profissional dos seus funcionários.
Angela Renna, gerente de DH, é ex-aluna do curso e faz um convite. “Ter tido a oportunidade de aprofundar o meu conhecimento com a história da África só me fez entender o quanto deixamos de enxergar sobre os bastidores da escravidão no Brasil e o quanto fomos privados de reconhecer a influência das riquezas da cultura africana em nosso país. Com muita alegria convidamos os funcionários administrativos e docentes a aproveitarem essa oportunidade oferecida pela FUNDASP”.
A especialização, oferecida semestralmente, é destinada a todos os empregados graduados da Instituição, das Mantidas e Unidades Suplementares, com bolsas integrais (100%).
Leia abaixo o resumo do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de cada ex-aluno, valorizando o conhecimento produzido e ampliando o alcance das reflexões construídas ao longo do curso.

Caroline Matias de Souza – FUNDASP / Setor de Projetos e Parcerias
RAÇA E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O EUROCENTRISMO E A TEMÁTICA ETNICO-RACIAL DENTRO DAS RELAÇÕESINTERNACIONAIS
Esta pesquisa analisa as relações raciais no campo epistemológico das Relações Internacionais (RI), com o objetivo de identificar o papel da raça na construção da disciplina e ampliar sua racionalidade por meio do questionamento do eurocentrismo.
Foram realizados dois exercícios: (i) compreender os limites e possibilidades de expansão das RI ao problematizar categorias tradicionais; e (ii) demonstrar por que as temáticas raciais não devem ser tratadas como marginais nesse campo.
Parte-se da hipótese de que a raça foi um dos principais elementos na formação da racionalidade eurocêntrica e da crença na superioridade europeia, capilarizada nas RI e definidora de seus temas centrais.
Metodologicamente, realizou-se revisão de literatura com autores que abordam as RI e as ciências sociais de perspectivas não eurocêntricas, como Felwine Sarr, Aníbal Quijano, Karina Silva e Enrique Dussel, mobilizando conceitos como eurocentrismo, modernidade e racismo.

Cinthia Medeiros Ramão – PUC-SP / Pró-Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias
POLÍTICAS AFIRMATIVAS E A CONTRATAÇÃO DE DOCENTES NEGROS NA PUC-SP
Este trabalho aborda as políticas afirmativas, com foco na contratação de docentes negros nas universidades, especialmente na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O estudo busca avaliar a efetividade das políticas de ação afirmativa implementadas nessa instituição, especialmente após a aprovação de um edital com cotas para docentes negros, visando aumentar a representatividade racial no corpo docente.
O objetivo principal deste estudo é verificar a eficácia das políticas de ação afirmativa para contratação de docentes negros na PUC-SP. O trabalho também busca comparar a composição racial do corpo docente antes e depois da implementação da política.
A PUC-SP, fundada em 1946, historicamente foi voltada para a elite paulista, mas a partir da década de 1960 passou a se consolidar como uma instituição de excelência acadêmica e compromisso com a justiça social. Dados recentes mostram que a instituição possui apenas 5,34% de docentes negros, um número inferior à composição racial nacional, que é de 55,5% de pretos e pardos. Esse cenário motivou a implementação da Política de Ação Afirmativa, com a meta de atingir 37% de docentes negros até 2023, promovendo maior diversidade racial no corpo docente.
A ausência de docentes negros na universidade reflete a manutenção de privilégios históricos associados à branquitude, perpetuando a exclusão racial mesmo após a abolição da escravidão. A PUC-SP reconheceu a importância de combater o racismo em suas diversas formas e entendeu que a inclusão de docentes negros seria uma medida de reparação histórica.
A política de ação afirmativa busca garantir igualdade de acesso à educação superior para a população negra, promovendo a representatividade racial e a pluralidade no ambiente acadêmico.
Em síntese, o presente trabalho busca avaliar a implementação e os resultados das políticas de ação afirmativa na PUC-SP, considerando a importância da representatividade racial na academia e as medidas adotadas pela universidade para corrigir desigualdades históricas e promover a igualdade de acesso.

Prof. Fabio Moreira de Oliveira – Centro Universitário Assunção / Docente do curso de Biblioteconomia
LINGUAGEM E IDENTIDADE: A FUNÇÃO DOS POP-UPS EXPLICATIVOS NAS NOVELAS ANGOLANAS TRANSMITIDAS NO BRASIL
A presente pesquisa propõe-se a investigar os conteúdos dos pop-ups explicativos exibidos nas novelas angolanas Windeck e Jikulumessu, transmitidas pela TV Brasil, analisando de que forma esses recursos contribuem para o fortalecimento da identidade cultural e das relações entre Angola e Brasil. Os pop-ups funcionam como ferramentas pedagógicas de mediação cultural, esclarecendo expressões e contextos próprios do português angolano, o que favorece a compreensão mútua e o reconhecimento da diversidade linguística no espaço lusófono.
A pesquisa, de caráter qualitativo, baseia-se na análise de conteúdo dos capítulos disponíveis no canal da TV Brasil no YouTube, tendo como fundamentação teórica autores como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Muniz Sodré, Rosane Borges e Laurence Bardin. Conclui-se que o uso de pop-ups explicativos nas produções televisivas angolanas constitui uma estratégia relevante
para a promoção da inclusão linguística e cultural, reforçando o diálogo entre países de língua portuguesa e contribuindo para a valorização da identidade africana nas mídias brasileiras.

Luciene dos Santos Souza – PUC-SP / SAE Pós-Graduação
INFLUÊNCIA DA TEXTURA CAPILAR NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE RACIAL DE MENINAS NEGRAS
Este projeto de pesquisa tem como objetivo demonstrar a influência da textura capilar (crespa ou cacheada) na construção da identidade racial e na autoestima de meninas negras, analisando a pressão estética e o racismo estrutural que essas crianças e pré-adolescentes podem enfrentar. O Brasil é um país racista, onde o padrão de beleza normativo implica prejuízos, principalmente às mulheres, sendo ainda mais prejudicial na infância e adolescência.
O trabalho busca evidenciar o papel crucial dos pais e responsáveis em auxiliar essas meninas a reconhecerem a beleza em seus cabelos naturais, promovendo a autoaceitação e a valorização da diversidade capilar. Para isso, a pesquisa foca em como o incentivo à experimentação de penteados, a educação sobre cuidados adequados para cabelos crespos e cacheados, e a valorização da negritude combatem o racismo estrutural e elevam a autoestima destas crianças.
A metodologia inclui a análise de textos acadêmicos sobre racismo, padrões estéticos ocidentais, a história das tranças afro, e páginas em redes sociais que promovem a valorização e o cuidado de cabelos crespos e ondulados, ajudando na desconstrução de ideias excludentes.
A aceitação da textura natural do cabelo é fundamental no processo de ajudar as crianças a se conectarem com suas raízes e a valorizarem sua identidade.

Maria Aparecida Alves de Souza – PUC-SP / FAFICLA

Nátaly Romão Nogueira – FUNDASP /Gerência Financeira
DESAFIOS DA INCLUSÃO NEGRA NA PERSPECTIVA DA LEI DE COTAS RACIAIS
O artigo tem como finalidade a discussão da Lei de Cotas Raciais, delimitado em universidades federais. Objetivou estudar a Lei nº 12.711 de agosto de 2012, realizando uma reflexão sobre o tema direcionado às cotas nas universidades. A metodologia utilizada na elaboração do texto foi baseada em elementos teóricos. Mediante os resultados apresentados e o propósito estabelecido cita-se o desafio, a importância e a consolidação de ações afirmativas. A análise dos conjuntos de fatores referente a origem da Lei de Cotas Raciais, é a única forma de concretizar a efetivação de reparação racial, possibilitando agir com justiça social, na esfera de universidades e órgãos públicos.
Diante do objetivo estabelecido, concluiu-se que as normas definidas ajudam a promover a diversidade étnica e profissões ocupadas originalmente por brancos, motivando o ingresso da população negra nas universidades, promovendo a diminuição do racismo. Contudo, na prática, esta, não seria a única medida capaz de resolver o principal problema racial do Brasil, sendo necessário maiores estímulos quanto a mudanças iniciais, nos espaços educacionais, buscando romper o racismo estrutural e cultural existente.

Rafael Jenuino – PUC-SP / Pró-Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias
ENCICLOPÉDIA NEGRA: CULTURA, IDENTIDADE E MEMÓRIA DE BIOGRAFIAS AFRO-BRASILEIRAS
A monografia Enciclopédia Negra: cultura, identidade e memória de biografias afro-brasileiras, apresentada ao curso de especialização em História da África: Educação, Cultura e Relações Internacionais do Centro Universitário Assunção (Assunção), tem como foco o estudo da Enciclopédia Negra (Companhia das Letras, 2021) e da exposição homônima realizada na Pinacoteca de São Paulo, compreendendo-as como expressões de resgate histórico, cultural e identitário do povo afro-brasileiro.
Na Introdução, o autor justifica a pesquisa pelo apagamento histórico e simbólico de biografias negras nos registros oficiais, propondo uma reflexão sobre o papel da arte e da memória como instrumentos de resistência. Define como objetivo geral analisar a Enciclopédia Negra enquanto meio de reconstrução da identidade afro-brasileira, e como objetivos específicos: apresentar um panorama da cultura africana e afro-brasileira; compreender os processos de resistência e hibridismo cultural; e analisar a exposição como prática de valorização e visibilidade das trajetórias negras.
O Capítulo I – “Cultura e suas definições: seus oceanos” apresenta uma abordagem teórica sobre o conceito de cultura sob a ótica antropológica, fundamentando-se em autores como Homi Bhabha, Lucia Santaella e Denys Cuche. São exploradas as bases da cultura africana, com destaque para a tradição oral, a espiritualidade e a arte como expressões identitárias e coletivas.
O Capítulo II – “Cultura afro-brasileira: oceanos que se encontram” analisa o processo histórico de formação da cultura afro-brasileira, resultante do encontro entre África e Brasil, destacando o papel da diáspora e do hibridismo na construção da identidade nacional. São discutidos os conceitos de memória e identidade afrodescendente com base em Nilma Lino Gomes, Reginaldo Prandi e Marina de Mello e Souza, enfatizando o protagonismo negro na consolidação da cultura brasileira.
O Capítulo III – “A Enciclopédia Negra: os oceanos resistem” investiga a exposição da Pinacoteca de São Paulo (2021) e o livro homônimo, organizados por Flávio Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz, como ações de reparação simbólica e visibilidade histórica. O capítulo detalha os seis núcleos curatoriais: Protagonistas Negras, Artes e Ofícios, Personagens Atlânticos, Rebeldes, Projetos de Liberdade e Religiosidades e Ancestralidades, que evidenciam a pluralidade das experiências negras e suas contribuições à formação da sociedade brasileira.
Nas Considerações Finais, o autor conclui que a cultura afro-brasileira é fruto da resistência e da recriação permanente, e que a Enciclopédia Negra se consolida como um instrumento pedagógico, político e estético de valorização das histórias negras, reforçando a importância da arte como meio de reconstrução da memória coletiva e de combate ao apagamento histórico.

Renato Antunes Santos – PUC-SP / Comissão Própria de Avaliação
O AFRICANO FACE AO RACISMO: DA ESCRAVIZAÇÃO ÀS POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMATIVAS
O conceito de raça foi utilizado pelos colonizadores para subjugar os povos africanos, que foram trazidos ao Brasil com emprego de força e violência. Durante a escravização e mesmo no pós-abolição, a população negra foi preterida. A 1ª Lei da Educação que proibia os negros de estudar, a Lei de Terras, a Lei que proibia o voto dos analfabetos e a Lei dos Vadios e Capoeiras, são alguns exemplos da sujeição imposta à população negra. A Lei Áurea decretou, em 1888, a liberdade dos escravizados sem nenhuma assistência à população liberta e o Século XX, mesmo com muita luta e organização dos movimentos negros, trouxe poucos benefícios à população negra, mas no final do Século XX e início do XXI podemos observar marcos legais e eventos importantes que incluem a Constituição de 1988, a Lei Caó (Lei nº 7.716/1989), a Conferência Mundial contra o Racismo (Durban, 2001), a Lei nº 10.639/03 (ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas), a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, o Estatuto da Igualdade Racial e a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012).
No entanto, os benefícios à população negra nunca vieram desacompanhados de alguma manifestação explícita de racismo. Se a Constituição de 1934 é a primeira a destinar um capítulo à educação, temos, por outro lado, a proposta de uma educação eugênica. Se em 2012 temos a Lei de Cotas, em contrapartida temos o discurso da meritocracia. Percebemos o racismo à medida em que notamos a ausência de pessoas pretas em todos os estratos sociais. Enquanto a população preta frequentar universidades, espaços de cultura, laser e restaurantes como motoristas, cozinheiras, seguranças e faxineiras, ainda estaremos reproduzindo a relação opressores e oprimidos entre descendentes de senhores e descendentes de escravizados. As Cotas e as ações afirmativas ainda são insuficientes para diminuir o abismo social entre brancos e pretos. É imprescindível criar mecanismos e dispositivos legais para que todos os aparelhos sociais convirjam para uma ampla reparação social e um profundo exercício e aplicação da cidadania.

Rivaldo Carlos de Oliveira – PUC-SP / Setor de Estágios
A HERANÇA AFRICANA NO BRASIL: A MÃO DE OBRA E AS RELAÇÕES DE TRABALHO
O ensaio científico reflete sobre a necessidade de analisar as relações de trabalho no Brasil, a partir período da chegada de africanos, submetidos à exploração pelos europeus. Perfila pela história da humanidade sobre a construção social em torno do trabalho, acentuando a exploração, dessa mão de obra, pelo próprio homem e a contribuição de africanos escravizados, influenciando o que foi chamado de América até os dias atuais. Na proposta deste ensaio surgem questões sobre: como costumes e tradições africanas foram transmitidas para fora de África?
Quais maneiras de lidar com atividades do trabalho, seguiram com os corpos negros para além mar? Em qual medida a colonização e escravidão alteraram as populações influenciadas por ela? Os objetivos de aprofundamento da reflexão proposta nessa discussão, analisa apagamentos da cultura e sociedades africanas na diáspora e o preconceito como método de prolongamento da exploração de pessoas, dialogando com os contextos contemporâneos das relações de trabalho e racismo no Brasil.
O método utilizado está ancorado em textos de pensadoras e pensadores negros, pois se tornou necessário dar voz ao olhar negro, mas sem exclusividade, valorizando também a contribuição literária de outras fontes através de consulta a livros e artigos técnicos acadêmicos, bem como materiais históricos e discursivos. Este artigo se finaliza questionando a sabedoria negra sobre as relações de trabalho e o preconceito proposital do branco em desvalorizar o modo de pensar e praticar as atividades relacionadas ao trabalho por africanos e seus descendentes, subjugando toda uma população pelo interesse de lucros.

Veronice Lopes Negreiros de Carvalho – FUNDASP / Setor de Desenvolvimento Humano
A INFLUÊNCIA DO MARACATU NA CULTURA PERNAMBUCANA
O maracatu é uma das mais importantes expressões culturais de Pernambuco, especialmente no carnaval do Recife. De origem africana, a manifestação carrega elementos essenciais para a memória, identidade e formação da população afro-brasileira, como atestou parecer do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Para além de expressão da cultura negra, visto que remete às coroações de reis e rainhas do Congo, simboliza resistências e lutas do povo negro em forma de batuque, danças, mistérios e encantos, congrega relações comunitárias e mantém forte vínculos com o sagrado.
Historicamente, o maracatu sofreu perseguições e preconceito, sendo considerado prática de “arruaceiros” até meados do século XX. A partir do movimento modernista, passou a ser reconhecido como símbolo da cultura popular e da identidade pernambucana. Hoje, é patrimônio cultural registrado pelo IPHAN, com duas principais vertentes: o maracatu nação (baque virado), típico do Recife e ligado ao candomblé, e o maracatu de baque solto (ou rural), mais comum na Zona da Mata, com influências indígenas e rurais.
A transmissão dos saberes ocorre pela oralidade, herança africana que mantém viva a ancestralidade e a tradição. Mestres e anciãos repassam às novas gerações os conhecimentos sobre os rituais, músicas e danças, preservando o sentido comunitário e espiritual da manifestação.
Fortemente vinculado às religiões afro-brasileiras, o maracatu expressa a devoção aos orixás e a ligação com o sagrado. Seus movimentos, personagens e rituais têm significados simbólicos e religiosos, como as bênçãos às Calungas e instrumentos antes das apresentações.
Atualmente, o maracatu combina tradição e modernidade, mantendo viva a herança africana enquanto se adapta às dinâmicas contemporâneas e ao espetáculo carnavalesco. Mais que uma festa, é um símbolo de resistência, fé, identidade e continuidade da cultura afro-pernambucana.